A função financeira que impulsiona o crescimento sustentável é a que olha para pessoas, processos e tecnologia como um só sistema, e faz da confiança o seu resultado mais valioso.
Ao longo da minha carreira, analisei muitos balanços. E há uma verdade que nenhum deles mostra: o ativo que mais valor gera numa empresa não está lá. Não tem uma linha própria, não é amortizado, nem aparece no inventário. Contudo, é ele que converte capital em resultados, clientes em parcerias duradouras e a estratégia em execução. Esse ativo são as pessoas.
Dizer isto não é retórica de recursos humanos, é uma constatação financeira. Uma organização pode ter capital, tecnologia e uma boa estratégia, mas, sem as pessoas certas a executá-la, nenhum desses ativos gerará o retorno que um acionista exige. Por isso, acredito que a função financeira, se quer contribuir para o crescimento sustentável, não pode ver os colaboradores apenas como a maior linha de custos da demonstração de resultados, mas como o principal motor de criação de valor.
O indicador que pode enganar
Os indicadores são uma poderosa ferramenta de gestão, mas exigem uma análise cautelosa. Um baixo turnover de colaboradores pode ser sinal de pessoas satisfeitas, motivadas e alinhadas. Mas pode também significar acomodação: pessoas que ficam, mas já não produzem o que poderiam e deveriam. O número é o mesmo, a realidade é oposta, e o segundo cenário paga-se caro, com produtividade perdida e talento que se apaga em silêncio. Nenhum dashboard substitui um líder atento e próximo, que percebe o que está por detrás dos números.
O valor de quem “faz sempre o mesmo”
Em muitos departamentos financeiros, parte do trabalho torna-se facilmente rotineira. Quando corre bem, ninguém vê; quando falha, é notado. Quem fecha contas, executa cobranças e pagamentos ou elabora o reporting sente muitas vezes que é apenas mais um. Mas não é. Sem esse trabalho, não há informação fiável e, sem ela, não há boas decisões, não há controlo nem a confiança dos diversos stakeholders.
Um dos papéis mais subestimados de um líder é precisamente este: tornar visível o valor do contributo de cada pessoa e mostrar como o seu trabalho se liga aos resultados da organização, mantendo elevados os níveis de motivação da sua equipa.
O sentido de ownership e a confiança
Uma das competências que mais valorizo, e que gosto de transmitir às minhas equipas, é o sentido de ownership. Quem pensa, decide e coopera como se a empresa fosse sua tem um efeito muito positivo nas equipas ao nível da produtividade, do controlo interno e da rentabilidade. E, se tivesse de escolher um único fator para explicar o desempenho de uma equipa, escolheria a confiança. Constrói-se com proximidade, coerência e exemplo, reduz conflitos e é contagiosa: uma função financeira em que as pessoas confiam umas nas outras transmite confiança a toda a organização.
Inteligência artificial (IA): eficiência com as pessoas, não à custa delas
A otimização de processos sempre foi uma preocupação da função financeira, e a IA veio acelerá-la a um ritmo nunca visto. É incontornável e a função financeira só tem a beneficiar com ela. Por que razão devemos ter alguém um dia inteiro a introduzir dados e produzir reporting que depois não tem tempo de analisar? Faz todo o sentido que a IA assuma essas tarefas e que o colaborador passe de “operador” a “analista”, validando e revendo o output da IA.
Defendo que a introdução da IA deve ser feita com critério e prudência e que essa transição exige um plano sério de formação e um investimento estratégico no reskilling e upskilling dos colaboradores. O objetivo não deverá ser fazer o mesmo com menos pessoas, mas produzir mais e melhor com as que temos. Uma transformação tecnológica que destrua a confiança das equipas deixa de ser eficiência e passa a ser apenas um risco.
Do back office ao centro da decisão
Bons processos, pessoas motivadas, tecnologia ajustada às reais necessidades e uma cultura forte produzem aquilo que de mais valioso a função financeira entrega: informação fiável, atempada e de qualidade. Processos robustos são controlo e gestão de risco; pessoas comprometidas são rigor; a tecnologia certa é rapidez e capacidade de análise.
É essa informação que permite decidir onde investir, onde crescer, onde travar e que riscos assumir. É também a base da governance e da credibilidade junto dos stakeholders. Uma empresa que conhece com rigor os seus números decide melhor, financia-se melhor e cresce de forma mais sustentável. A função financeira não existe apenas para controlar, mas também para impulsionar o crescimento.
Um ecossistema feito de pessoas
On Wellow Network, definimo-nos como um Human Powered Ecosystem: 19 empresas, oito marcas e mais de 8.500 colaboradores, em áreas tão distintas como os recursos humanos, o outsourcing, a mediação de seguros e imobiliária e a restauração. Num grupo com esta dimensão, a função financeira só cumpre o seu papel se for rigorosa nos números, mas centrada nas pessoas que os produzem.
O que nenhum balanço mostra
Os balanços continuarão a não ter uma linha para as pessoas. Mas qualquer gestor financeiro sabe que os números são sempre o resultado de algo. Por detrás de uma informação financeira fiável está uma equipa que acredita no que faz. Por detrás de um crescimento sustentável está uma organização que confia nos seus números e nas suas pessoas.
Talvez seja essa a verdadeira missão da função financeira: garantir que ambos merecem essa confiança.
By Rui Barroso, Administrador & Chief Financial Officer da Wellow Network