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Os desafios do mercado de trabalho em Portugal

Artigo adaptado a partir de um texto de opinião de César Santos, presidente da Wellow Network, publicado no ECO, a 30 de setembro de 2026.

Portugal não precisa apenas de mais pessoas. Precisa de alinhar a imigração, a qualificação e as competências com as necessidades da economia, sem esquecer o essencial: criar condições para reter o talento nacional.

Portugal enfrenta um problema estrutural de envelhecimento e redução da população em idade ativa. A EURES – EURopean Employment Services – associa a crescente escassez de mão-de-obra à mudança demográfica.

A este problema junta-se um desajustamento entre as qualificações disponíveis e as necessidades da economia. Embora 14% dos portugueses sejam sobrequalificados, 41% trabalham numa área diferente daquela em que estudaram. Este mismatch tem também impacto salarial: estes trabalhadores recebem, em média, menos 17% do que pessoas com a mesma escolaridade adequadamente colocadas.

Existe, assim, um insuficiente alinhamento entre o sistema educativo e formativo e as competências procuradas pelas empresas, particularmente as técnicas. Valorizamos a licenciatura, mas desvalorizamos socialmente muitas profissões de que hoje desesperadamente precisamos. A EURES identifica carências na metalomecânica, maquinaria, TIC, agricultura especializada e restauração. Na construção, estima-se que existam 80 a 90 mil vagas por preencher. Não faltam simplesmente pessoas, faltam também determinadas competências, nomeadamente técnicas, para funções indispensáveis.

A nossa experiência com a Talenter confirma esta realidade. Em setores como indústria, logística, construção ou hotelaria, é cada vez mais difícil responder às solicitações apenas através do recrutamento. Soluções que combinem Recrutamento e Seleção com Formação Profissional – como a Talenter Learning – orientada para necessidades concretas do mercado são cada vez mais determinantes.

A sobrequalificação, o desajuste de competências e a baixa remuneração ajudam também a explicar a emigração. Cerca de 65 mil portugueses saíram em 2024 e 30% dos nascidos em Portugal entre os 15 e os 39 anos vivem atualmente no estrangeiro, segundo o Observatório da Emigração. Num país envelhecido e com escassez de trabalhadores, perder dezenas de milhares de pessoas por ano agrava a pressão sobre a oferta de trabalho.

É neste contexto que a imigração assume um papel estrutural. Segundo a AIMA, Portugal tem cerca de 1,6 milhões de cidadãos estrangeiros residentes e a OCDE considera a imigração um motor essencial da oferta de mão-de-obra. Posto isto, a questão já não é saber se precisamos de imigração, mas que imigração, para que necessidades e com que política de integração.

A entrada deve estar mais alinhada com as áreas e competências em défice, através da definição de número de vagas ativas, critérios rigorosos de seleção (idade, língua, qualificação e experiência), incluindo canais de mobilidade com os PALOP, quando exista correspondência entre competências e necessidades.

Para as empresas de Recursos Humanos, como a Talenter, há quatro desafios fundamentais:

Qualificação
Apesar do crescimento da formação superior, 38% da população adulta não concluiu o ensino secundário, contra 19% na OCDE. Precisamos de desenvolver e valorizar as competências técnicas de que o mercado necessita.

Ajuste de Qualificações
Portugal não tem apenas um problema de falta de mão-de-obra, mas também de matching entre pessoas, competências e oportunidades. Procurar alinhar a oferta do ensino (superior e profissional) com as necessidades da economia é fundamental para evitar uma parte da emigração.

Integração
Não basta permitir a entrada de trabalhadores estrangeiros, é necessário assegurar o acolhimento, apoiar a integração e criar condições para a permanência.

Reconhecimento de Competências

Muitos imigrantes qualificados acabam em funções abaixo das suas competências por dificuldade no reconhecimento das habilitações. Nestes casos, estamos a desperdiçar talento de que o país necessita.

Para as empresas que trabalham no mercado de trabalho não basta preencher vagas, é preciso identificar competências, aproximá-las das necessidades das empresas, qualificar e apoiar a integração. Na Wellow Network, o projeto ReStarter requalifica para a empregabilidade públicos com maiores barreiras de acesso ao emprego, enquanto a Plataforma de Empregabilidade agrega mais de 300 parceiros sociais que encaminham pessoas em situação de carência ou fragilidades várias para oportunidades profissionais.

Importar mão-de-obra sem integrar, qualificar e reconhecer competências é resolver uma necessidade de curto prazo e criar um problema de longo prazo. Portugal precisa de uma política de imigração alinhada com as necessidades reais da economia, mas, sobretudo, de uma política de Gestão de Talento: capaz de formar melhor, reconhecer competências, integrar quem chega e dar razões para ficar a quem cá está.

 

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